Dear Michael.

Por John Pereira
Postado em domingo, 18 de outubro de 2009 - 22:57

“Confesso que há dias que estou tentando escrever alguma coisa, tentando resumir em palavras tudo o que eu senti na última quinta-feira, mas aí vejo que as palavras são insuficientes, que ninguém tem como dimensionar como e o que Michael Jackson representou em sua vida. Naquela tarde de quinta o mundo perdeu o único e real fenômeno do mundo da música, que durante 45 anos encantou, emocionou, passou a sua mensagem e, sobretudo, conquistou cada dia mais e mais fãs.

Mas eu, no auge da minha falta de palavras, não preciso descrever alguém como o Michael. Ele se descreve sozinho, a vida dele e o sucesso conquistado se descrevem sozinhos, seria até irrelevante da minha parte dizer que ele revolucionou e ajudou a moldar o mundo da música como ela é hoje. Não preciso lembrar aqui que ele vendeu milhões de discos, teve dezenas de músicas no topo das listas existentes, sendo que uma delas estreou em primeiro lugar, teve vários videoclipes como os mais pedidos na TV e ganhou uma outra dezena de prêmios e homenagens.

Era 1992, eu tinha cinco anos de idade e me lembro como se fosse hoje do dia em que fui formalmente apresentado à música de Michael e, ao contrário da maioria, não comecei pela música mais obvia. Não foi “Thriller” e o seu clipe que dava medo que me fez gostar dele, não foi “Billie Jean” e o passo moonwalk que me fizeram gostar dele. A música responsável pelo início do ciclo de adoração foi “Remember the Time”. Sim, aquela que tem o Eddie Murphy em seu clipe de nove minutos de duração. Vi o clipe pela primeira vez e perguntava para minha mãe como ele fazia tudo aquilo? Como todo mundo conseguia dançar igualzinho? Como que ele virava pó no final? E minha mãe dizia que “ele era incrível, já tinha até virado zumbi”.

E ontem, ao conversar com ela, relembramos dessa história. Ela dizendo que os meus olhos nem sequer piscavam quando via o clipe. Pouco tempo depois eu já ficava em frente à TV tentando imitar os passos. E naquele momento a mágica já tinha sido feita. Michael tinha mais um fã no mundo e, ousaria em dizer que uma boa parte das pessoas que são fãs dele deve ter uma história parecida com a minha. Daquele ponto em diante foi um pulo. Já pedia pelos vinis/CD’s dele, já pedia para minha mãe gravar todos os clipes que passavam, mas ainda tinha medo do tal clipe dos zumbis. Era o único que eu não conseguia ver, sempre me escondia com medo dos zumbis saírem da TV e me transformarem.

E esse medo se seguiu durante alguns anos até entender que nada ia acontecer comigo ao ver “Thriller”. Já entendia melhor as coisas, já cantarolava “Billie Jean” pela casa e até sabia que a música de abertura do Vídeo Show era do Michael. Mas naquela época muita gente já falava que ele era estranho, doido, maluco ou outras definições das quais prefiro não comentar. Naquela época já tinha chorado também por causa de um show que a Globo passou da HISTory Tour em Munich, show ao qual eu não consegui gravar completamente porque minha mãe e eu programamos o Vídeo Cassete errado e o VHS acabou exatamente no início da última música. Esse show, junto com o CD “Blood On The Dance Floor”, eram os meus presentes de natal naquele ano de 1995 (ou 1996, não me recordo perfeitamente), então já dá pra imaginar a tristeza profunda da jovem criança de, sei lá, oito (ou nove) anos de idade.

É estranho tentar escrever algo sobre a morte de um ídolo, é mais estranho lembrar de tudo isso e ver que o tempo passou. Eu nunca o vi de perto, ele não sabia da minha existência e, mesmo assim, chorei feito uma criança quando descobri que ele havia sido levado ao hospital após uma parada cardíaca.

Nos últimos dias eu realmente entendi o que é ser fã, entendi pelo que passaram os fãs do Elvis, do Lennon, do Vicious e do Cobain quando receberam as fatídicas notícias. Gosto de todos os citados, mas não tinha passado pela sensação de vê-los vivos e momentos depois saber que nos deixaram. Já tinha passado por uma experiência antes, com o meu avô. De todas que vivenciei, foi a perda mais sentida por mim em 22 anos de vida e que me faz falta até hoje. Nunca achei que fosse sentir esse vazio novamente, mas senti. Não na mesma proporção, mas senti.

Sendo bem sincero, hoje não me interessa saber o que de fato aconteceu naquela quinta, não me interessa mais saber se ele fez uma ou dez cirurgias, se ele era inocente ou culpado das acusações de pedofilia, se ele não sabia como gastar o seu dinheiro, qual era a maneira que ele cuidava dos filhos ou se relacionava com as pessoas. E, sabe por quê? Simplesmente porque ninguém sabe o que se passava na cabeça dele para dizer, entender ou apontar qualquer coisa. Como disse Marcos Mion em seu blog, “quem já vestiu aquela pele pra dizer alguma coisa sobre como ele viveu? Quem é tão puro e dono da verdade pra saber se sairia melhor se estivesse no lugar dele?” Pois é, ninguém! Ninguém tem moral o suficiente para dizer que ele era pedófilo, que ele era maluco, que ele renegava a sua cor e que ele era viciado em remédios.

Nem eu e nem você passamos por tudo o que ele passou, não fizemos sucesso aos seis anos, não tivemos um pai repressor, não tivemos uma família que só apontava os defeitos, não tivemos que largar de lado coisas simples como andar de montanha russa para viajar pelo mundo trabalhando. Você não se tornou milionário com menos de 10 anos de idade, sendo que a sua família era de origem pobre e humilde.

Ônus do sucesso? Claro que sim. Mas uma criança que cresce no meio de uma pressão enorme como ele e se vê sempre sozinho no mundo tende a ter um comportamento aleatório e não sou eu que digo isso, basta conversar com qualquer psicólogo ou psiquiatra que você poderá constatar. Se ele se tornou freak, recluso, perfeccionista no que fazia e tinha a sua forma de ver a vida, ele foi moldado assim, por todos aqueles que julgaram e que se aproveitaram do seu sucesso.

E o que mais me causa estranheza dentre todas essas histórias envolvendo o Michael é que, todo mundo que convivia com ele ou que passava por um breve momento ao seu lado o descrevia como uma pessoa pura, de uma bondade inimaginável, de um talento soberbo, de uma obstinação incrível e poucas vezes vista. Porque é que ninguém se lembra do fato dele se juntado a Lionel Richie e Quincy Jones para arrecadar fundos para a campanha USA for África? Porque ninguém se lembra de que ele escreveu a letra da música usada para arrecadar fundos em um único dia? Porque ninguém fala que ele fundou a “Heal the World Fundation”, que ajudava milhões de crianças pelo mundo? Porque não comentam o fato dele ter doado pelo menos US$ 300 milhões – 300 milhões de dólares – para ajudar vítimas da fome e da guerra?

Claro que cada um tem a sua forma de ver as coisas, de sentir uma perda e de se relacionar com as pessoas, mas Michael era talvez o maior alvo de críticas. Como não se lembrar das histórias e deixar de citar os vários tablóides se especializaram em retratar a vida dele de maneira depreciativa e isso não aconteceu porque ele era um ser “diferente”, mas porque ele se torna (sim, no presente mesmo) o centro das atenções facilmente, vende notícias como ninguém, tem fãs espalhados pelo mundo como ninguém tem e, desde o início da carreira, conviveu com a responsabilidade de ser este showman, de ser sempre o número 1. Pode ser fácil para você que não vivenciou ou que gostaria de ter sucesso, mas para quem não está preparado e se torna obrigado a lidar com isso pode ser um fator quase destruidor. E isso destruiu o Michael, que sucumbiu a todas as críticas, não suportou as pessoas apontando o dedo, não conseguiu lidar com a opinião de terceiros que falavam mal.

Inveja? Desprezo? Despeito? Vontade de ocupar o lugar dele? Nos últimos anos eu sempre vi as coisas dessa forma. E o pior para mim é ver uma parte da imprensa, seja lá fora com os tablóides ou aqui no Brasil onde qualquer um pode virar apresentador de TV e colocar as suas opiniões descabidas na tela, contribuindo em larga escala para este tipo de comportamento das pessoas. Uma coisa é você dizer, por exemplo, que o álbum “Invincible” ficou abaixo dos outros CD’s e que o Michael já não era mais o mesmo. Outra coisa é você estampar na capa do seu jornal ou fazer uma matéria no seu programa sobre celebridades que ele desejava ficar com a pele clara porque renegava a sua raça. Aí é que eu me pergunto: Será que vale mais a opinião de pessoas que já estão pré-dispostas a denegrir uma imagem de alguém ou tudo o que a pessoa fez pelo próximo e a opinião de quem convive com ela?

Talvez o grande desejo destes que se dão ao trabalho de falar mal fosse o de ter a mesma visibilidade do Michael ou então que ele não tivesse se tornado o astro que se tornou. Talvez, se a segunda opção tivesse acontecido, ele estivesse bem, feliz e dentro do padrão de vida desejável para a maioria das pessoas. Agora, se ele não tivesse passado por tudo que passou, culminando em sua morte, ele não teria hoje oito das dez músicas mais executadas no Last.FM na semana, não dominaria o Top 100 do iTunes de músicas, vídeos e álbuns, não teria seus clipes amplamente exibidos em canais de TV, não teria alcançado os vários feitos já citados neste texto e, certamente, não me levaria a escrever este texto e a derramar mais lágrimas.

Acima do que qualquer um pode pensar, Michael marcou época, foi o nome mais comentado por longos e longos anos, foi seguido por milhões de pessoas, causava tumulto por onde passava, seja no aeroporto ou em uma simples loja de brinquedos e, tudo isso, por causa de sua música, por causa de seu talento, por causa da sua genialidade de transformar uma história pessoal em sucesso musical, como foi com “Billie Jean”.

Ainda não consegui organizar os pensamentos e sentimentos sobre todos os últimos dias, mas cada vez mais eu sinto a necessidade de dizer obrigado ao senhor Michael Joseph Jackson por tudo que ele me proporcionou como artista, pelas mensagens de amor, luta e compreensão que ele soube passar em suas músicas como ninguém e, acima de tudo, lamentar eternamente por não ter realizado um dos meus maiores sonhos de infância, adolescência e fase adulta, que era vê-lo de perto e ter a chance de dizer um pouco do que ele significa em minha vida.”

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Publicado originalmente no Portal Music Life em junho de 2009.

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