A culpa é do torcedor de sofá

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Por: Fred Melo Paiva

Roubado de novo aos 40 do segundo tempo – dois títulos que não fizemos por merecer. Mas não importa: dois títulos se vão, Mineiro e Libertadores, na mão grande. E merecimento por merecimento, o Atlético pode passar um século sem chutar a gol que ainda assim vai merecer sempre. Porque nesse quesito a gente tem mais crédito do que todos os bancos do mundo juntos e multiplicados.

Eu não gosto de falar de Atlético quando o Galo é eliminado. Ano passado, obrigado a imaginar o que seria de mim pra escrever qualquer coisa caso a gente perdesse a final para o Olímpia, convenci o Estado de Minas de que seria um grande marco deixar este espaço em branco. Como fizera O Estado de S. Paulo em seu editorial no dia seguinte ao falecimento do doutor Ruy Mesquita, dono do jornal e titular absoluto da seção. Havia uma coincidência: perder aquele título, pra mim, também seria a morte.

Hoje nem tanto – 2013 fez as pazes do atleticano com a vida. Desde então, um estranho processo me acontece: eu não choro mais na derrota. Superei essa fase. Agora eu só choro na vitória – e sempre, sempre, com a narração do gol do título de 1971 pelo Vilibaldo Alves. Esse meu CD só falta furar.

De modo que não chorei na quinta-feira. Mas ainda assim o ideal seria publicar aqui, hoje, uma receita de bolo – como fazia o mesmo Estadão quando tinha algum texto censurado pela ditadura. Como a única receita que eu sei é de omelete e miojo, poupo você, atleticano, desse meu lado gourmet. Sem outra alternativa, bora achar o culpado pela desgraça.

O Kalil eu não aceito. Obrigado, presidente, por oferecer o lombo para uma sessão de autoflagelamento, mas não será possível culpá-lo jamais. Porque você reergueu o nosso Galo na unha, acreditando, como uma vez você me disse, que não tem nada no mundo maior do que o Atlético. A não ser que você tenha matado alguém, tá perdoado a priori de qualquer pecado cometido.

Levir não é culpado porque acabou de chegar. Embora tenha substituído mal – porque num time com Emerson Conceição você não tira Tardelli e Fernandinho nem se estiverem de muleta. E não venha pegar no pé de dom Diego, porque ídolo a gente tem de tratar como ídolo. Tardelli em má fase é melhor que 90% dos pernas de pau que são titulares no Brasil. Devagar com o andor, meu caro Levir. Como disse o Jorge Ben: prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

O que eu vou dizer me dói aceitar, mas precisa ser dito: quem eliminou o Galo na quinta-feira foi a torcida presente ao estádio. Uma torcida que não torce, à exceção da Galoucura e uns poucos. Se o Independência comporta apenas esse torcedor de sofá, o mais urgente a fazer, antes de qualquer outra ação, é sair correndo de lá.

As bandeiras precisam voltar, as faixas também, as dezenas de organizadas que desapareceram, o papel higiênico que voava como serpentina quando o time entrava em campo, a fumaça preta, o bandeirão que dava a volta na arquibancada. O pobre precisa voltar. O chope. A geral. O estádio brasileiro hoje é um campo neutro. Para alguns times, sempre foi. Mas para o Galo? O Galo nunca foi um time – o Galo é a sua torcida. E hoje, isso sim é de chorar, a gente não consegue mais cantar o hino até o final. Eliminação nenhuma pode ser mais triste do que isso.

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Além de traduzir a alma de boa parte dos atleticanos (incluindo a minha), Fred Melo Paiva escreve para o Estado de Minas e para o portal Superesportes.

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Publicitário com raízes no jornalismo. Apaixonado por música, viciado em redes sociais e cerveja. Vive dividido entre 524541 projetos e, por isso, dorme só quando dá.