Era sobre o Damien Rice… virou sobre você.

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Organizar as coisas na minha cabeça nunca foram fáceis e, pela primeira vez, eu vi isso acontecendo quando o tema é um show. No caso, o show do Damien Rice no Rio, que aconteceu no último dia 24.

Os dias passam e, por mais que eu queira, ainda não consigo encontrar uma forma de descrever de forma tão honesta o que foi ver, ouvir e se emocionar com tudo o que aconteceu no Vivo Rio. Por muitas vezes, me falaram que existem coisas que acontecem nos momentos adequados/necessários para as nossas vidas e, ao sair daquele local, a única sensação que martelou na cabeça era a de que eu precisava daquele show. Eu precisava daquele momento e daquelas músicas tocadas por um irlandês maluco, com sérios problemas psicológicos e que, na casa dos 40 anos de vida, retrata com maestria todo o processo de dor e sofrimento.

“Ah, o Damien é um cara legal e que fala de amor”. Ok, por mais que alguns olhem para as músicas do Damien como uma trilha romântica (e talvez você que está lendo seja um desses), cada uma das canções consideradas especiais por mim são um retrato de toda a carga sentimental e sofrida com a qual Rice lida com a vida. Ou seja, se tem uma coisa que eu não consigo é olhar para as músicas do Damien como “músicas românticas”. Tudo aquilo é dor, sofrimento, arrependimento, pedido de perdão, reconhecimento das merdas que fez na vida… qualquer coisa, menos amor. E, conforme as coisas caminham na minha vida nos últimos tempos, nada poderia fazer mais sentido na minha cabeça do que trechos e músicas sentimentais e sofridas, certo? E dada a forma como o show bateu aqui, esse texto não faria sentido lá pelo Audiograma. É pessoal demais.

Pois bem, desde o refrão de “Volcano”, música que abriu a apresentação, eu me apropriei do show como se fosse uma representação do John ali no palco. “What I am to you, you do not need”. Era um clima diferente, um momento diferente. “I Remember” era só a segunda música e, apesar disso, tudo começou a fazer sentido na minha cabeça. Foi quando “The Greatest Bastard” entrou em cena.

Logo nos primeiros versos – “I made you laugh, I made you cry”, se tornou impossível não me lembrar de uma certa garota que cruzou o meu caminho e eu deixei partir, talvez por eu ser um dos vários cretinos que ela já conheceu nessa vida. O maior? Não sei. Na verdade, não sei nem se eu tenho (ou tive) essa importância toda para ela, mas nunca me esquecerei de que foi por ela que eu reaprendi a amar. Como bem diz Damien ao longo da canção, alguns conseguem, erram, fingem, se preocupam ou esquecem. Alguns como eu estragam – mesmo sem querer – e se arrependem. O ser humano está sujeito a isso, assim como está sujeito a reconhecer que, mesmo tendo feito, nunca quis decepcionar ou deixar o outro partir. “The Greatest Bastard” levou consigo algumas lembranças e as primeiras lágrimas da noite. Agora, ao lembrar do momento, outras ameaçam cair.

Falar de amor é algo delicado, né? Falar desse sentimento só não é mais delicado do que sentir tudo o que ele proporciona bem bom e ruim e, quando atingimos esse estágio de dor, ser obrigado a perceber que, em algum momento da vida, é preciso seguir adiante. Por mais que esse seja o meu maior desejo agora, sei bem que não tenho o poder de desfazer o que está feito, aquilo que é passado. Por mais que a minha vontade seja de gritar para você a parte final de “Trust and True” e te pedir para vir, sei que eu preciso seguir em frente em algum momento da minha vida e que, provavelmente, você não virá mesmo se eu pedir.

A cada verso entoado por Damien com um tom de desesperança ou a cada acorde tocado com sofrimento aliado a distorção, loops e muita agonia, lá estava eu sentado na cadeira da minha mesa, cantarolando baixinho, enxugando as lágrimas que caiam e dando seguimento ao processo de apropriação intelectual de cada uma daquelas letras. Elas eram tão minhas. Elas são tão minhas que, a cada momento, eu só conseguia me lembrar de traçar um paralelo triste e cortante entre elas e todas as relações amorosas que tive ao longo da vida. Me questionar sobre “não me encaixar” nesse processo comum da vida de se relacionar com outras pessoas e ser feliz com isso enquanto ouve “The Box” ou se identificar de forma tão intensa com “9 Crimes” e perceber que você já desejou aquilo podem indicar sintomas graves de depressão para um ser humano normal, mas ouvir Damien Rice causa isso. Ouvir Damien Rice ao vivo causa isso com uma intensidade dez vezes maior. Vou me esconder atrás disso.

Talvez ainda tenha um pouco de cada pessoa que passou pela minha vida até hoje. Cada uma deixou um pouco de si comigo e, acredito, essa troca tenha ocorrido de forma igual. E, por mais que tenha sido curto, tenho um pouco de você aqui comigo até agora. Um pouco do seu gosto, de seu cheiro, dos conselhos e de cada sorriso bobo que apareceu por aqui. Um pouco das dúvidas e certezas que você deixou comigo ao se despedir dizendo que eu uso o amor para manipular as pessoas e que, por isso, tinha nojo de mim. E, por mais que eu saiba (e você também), ainda é difícil definir tudo isso que está acontecendo comigo e, talvez por isso, ao escrever sobre um show, acabo escrevendo mais sobre você. Não é que eu queira. Ligar você ao Damien Rice não é algo que eu desejava. No fundo, eu só queria seguir a minha vida sem você e ficar bem, assim como você seguiu e não sente a menor falta do que eu representava… se é que eu representava. Eu tô realmente tentando me conhecer melhor, tentando me entender e todo esse processo tem desencadeado muitas coisas, muitas perguntas. Talvez por isso o Damien Rice venha fazendo tanto sentido na minha vida nos últimos meses.

“It Takes a Lot to Know a Man”. “Grey Room”. “MY FAVOURITE FADED FANTASY” e a vontade de sair gritando “What it all, what it all could be…With you” na sua cabeça até conseguir descobrir o que tudo isso que sinto poderia ter se tornado caso fosse algo bom para os dois. Caso fosse algo que viesse dos dois. E é engraçado parar para pensar que, apesar de adorar o O e ter ouvido bastante o My Favourite Faded Fantasy no ano passado, a minha identificação com o Damien Rice veio muito mais pelo momento do que pela música propriamente dita. Tem muito de mim naquelas músicas e só agora, entre o processo mais recente de perda e o show, que pude me dar conta de tudo isso.

Ver o Damien ao vivo marcou. Independente da sua ligação com o cara ou com as suas músicas, é algo que eu recomendo para a vida, principalmente porque pode bater aí na sua cabeça de diversas formas. Na próxima, a minha relação com o show pode ser bem diferente da que aconteceu no último dia 24. No entanto, aqui estou entoando repetidamente o famigerado verso “I can’t take my mind off you” de “The Blower’s Daughter” porque, mesmo sabendo que você me detesta e já deixou o que aconteceu para trás, foi o que me restou sobre você. Foi só o que restou.

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Publicitário com raízes no jornalismo. Apaixonado por música, viciado em redes sociais e cerveja. Vive dividido entre 524541 projetos e, por isso, dorme só quando dá.

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