Sabe aquelas três palavras? Então…

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Vivemos em um mundo onde amar exige muito mais de si do que deveria. Com o andar das coisas, amar se tornou algo tão complicado que, com diversas crises existenciais ou com a forma superficial com a qual encaramos a vida, se tornou algo quase que inatingível.

O mais contraditório de tudo isso é que, mesmo que inconscientemente, queremos encontrar esse tal de amor que está perdido por aí. Cada um tem a sua lista de desejos e, esteja no topo ou no fim dela, todo mundo pensa em ser feliz tendo alguém do lado, ainda que não seja a sua prioridade no momento. Existem pessoas focadas no trabalho ou em suas descobertas pessoais, assim como existem aqueles que estão magoados até hoje por um relacionamento que não deu certo. Querendo ou não, experiências passadas determinam a ordem dessa lista de desejos e cada um de nós sabe como deve lidar com isso. Ou acredita que sabe.

Quando alguém decide descer do ônibus e te deixar lá, sem saber o que fazer, é inevitável que uma mágoa se instale dentro da gente ou que feridas fiquem abertas sem conseguir se cicatrizar. Talvez elas nunca se cicatrizem, isso é impossível prever. O que fica martelando na cabeça é a eterna sensação de vazio, que gera um medo de viver, de botar a cara no vento ou de sair e sentir a chuva caindo no rosto. É mais fácil se manter em uma redoma, pois é mais seguro do que se entregar e correr o risco de ver tudo se repetir e, quando menos esperar, ver outra pessoa descendo do ônibus e te deixando sem reação. “Por qual motivo eu correria um risco de me machucar de novo se aqui é mais seguro?”, diria uma pessoa precavida, ainda que isso não seja 100% seguro.

Hoje em dia, se tornou comum a gente buscar no parceiro um conjunto de características que não possui ou que consideramos fundamentais para que ele seja capaz de nos satisfazer. Não basta a pessoa ser legal, companheira, divertida, inteligente ou bonita. Ela precisa torcer para o mesmo time que o seu, amar a sua banda preferida na mesma intensidade que a sua, gostar dos mesmos filmes e séries, ter a mesma disponibilidade para sair e viajar, usar as mesmas gírias que você usa diariamente, tomar a mesma cerveja… passamos a exigir muito mais das pessoas antes de se entregar e viver algo que pode ser legal e duradouro. É como se eu criasse um ranking onde a pessoa é eliminada caso não goste de Red Hot Chili Peppers ou odeie 007. Isso me faz pensar que, com tantas barreiras, é claro que as relações serão superficiais. Nunca será profundo o suficiente. Sempre faltará algo. Então, é mais fácil eu utilizar o Tinder ou ir para a balada para passar o tempo, não é mesmo?

Certa vez, eu ouvi de uma pessoa que o amor não é uma coisa forçada ou implorada. Ele simplesmente acontece e, quando a gente vê, ele se instalou e não sabemos como se livrar ou vivenciar. Segundo ela, a gente realmente não escolhe por quem nosso coração irá bater mais forte e nunca teremos o controle disso, por mais que a gente queira. E ela não está errada. Tanto que hoje, é por ela que esse coração que guardo aqui bate mais forte.

Ela entrou na minha de uma forma tão peculiar que eu não percebi o quão especial poderia ser. Hoje, a sinto deixando de fazer parte da minha vida e percebo o quão especial todo esse tempo foi. Com o passar do tempo, a gente acaba se blindando e, por muitos momentos, não consegue perceber a importância de tudo aquilo que está na nossa cara. Como bem diz minha psicóloga, a gente precisa sair daquela situação e observar de fora, seja como um mero espectador da situação ou até mesmo com o olhar do outro envolvido. Esse é um exercício difícil para quem está constantemente fechado em uma redoma onde se vive só. Você perde essa habilidade de analisar as coisas e se sente incapaz de executar tal ação. É só mais uma barreira que a gente mesmo cria, ela diria. E, mais uma vez, ela não está errada.

Ela apareceu quando eu tava acostumado a viver a vida transitando entre bares e shows, tomando uma boa cerveja e escutando as minhas músicas preferidas. Hoje eu vejo o quanto levava uma vida solitária, pois eu sequer era capaz de indicar coisas para as pessoas ouvirem. Apesar dos amigos presentes, eu estava curtindo a minha rotina egoísta, que me fazia decidir ir para shows em outras cidades faltando dias para eles acontecerem, sem sentir a necessidade de me planejar ou ter algum tipo de controle. Eu comprava os meus próprios presentes e me agradava com uma cerveja artesanal, um box de uma série, um CD ou DVD novo. Eu me levava para comer coisas legais e tudo aquilo parecia perfeito. Solitário, mas perfeito. Eu poderia largar tudo e me mudar para a Holanda sem qualquer preocupação além da financeira. Minha família estaria no Skype. Meus amigos estariam no Facebook. Eu tinha a minha zona de conforto que era inabalável. Era.

No início, parecia só mais uma pessoa. Mais uma amizade que seria legal cultivar, mas que não passaria disso. Com o tempo, a sua rotina passou a fazer parte da minha. Ela tinha hora para dormir, ela precisava estudar, ela passava o dia inteiro na faculdade, ela ainda tinha tempo para mim, ainda que me xingasse pois a estava “tirando do seu foco”. Mal sabia ela (e eu também) que, na verdade, quem estava sendo tirado do foco era eu. Na verdade, ela sabia. A gente brigou por motivos aleatórios e, no fim, lá no fundo a gente sabia que tinha algo além dessa amizade louca que fazia a gente se falar quase que diariamente. Por aqui, o mundo parava quando chegava algo e ele não voltava a girar enquanto não enviasse uma resposta. Isso acontecia por inúmeras vezes ao dia e, quem passava muito tempo por perto, percebia. Só eu que não. Talvez eu não queria dar o braço a torcer, mas certamente tinha medo do que tudo aquilo poderia resultar. Quando dei por mim, ela já estava instalada aqui dentro do peito e não dava mais para, simplesmente, expulsá-la.

Me pergunto como diabos isso aconteceu. A gente pensa de forma parecida, temos várias opiniões que batem, personalidades parecidas, jeitos semelhantes de lidar com certas situações, mas temos gostos um pouco diferentes. Ela ama terror, consegue viver normalmente sem música, consegue falar abertamente sobre sexo… Eu gosto de ação, não consigo viver sem música e me sinto travado ao falar de sexo. Me pego pensando e vejo que, se eu fosse seguir o tal conjunto de características que procuraria em alguém, talvez ela não se encaixaria. E isso é o mais legal porque, ainda que não tenha dado certo, ela me fez perceber que, no fim das contas, não existe ninguém que vá se encaixar nesse molde perfeito que buscamos. No fim, as diferenças não existem para eliminar o outro, mas para nos fazer perceber o quanto podemos melhorar e aprender com aquela pessoa. Essa é a grande questão da vida. Esse é o ponto que fez com que a redoma em torno de mim e do que eu sentia se quebrasse. Depois desse tempo vivido e de tantas noites em claro com ela do outro lado da tela falando ou fazendo coisas malucas, era difícil passar imune por tudo isso.

É difícil explicar. São várias coisas passando pela cabeça, várias definições para tudo isso. Ao mesmo tempo em que estou aqui vendo o lado bom das coisas, eu posso estar só fantasiando isso na minha cabeça e tentando florear algo que nunca existiu. Ou que só eu quisesse que existisse. É difícil definir sentimentos, nada é exato ou passível de um significado típico de dicionário. Cada um vê e vive a vida de uma forma, cada um tem definições próprias para as coisas. Dizem que o amor não tem começo ou fim, ele apenas se transforma com o passar do tempo e, com cada transformação, a gente vai evoluindo e buscando ser alguém melhor e, obviamente, lidar melhor com esse sentimento louco que faz parte da gente. Você pode deixá-lo guardado, pode achar que não precisa dele, pode acreditar que ele pode ser bom e viver… o que cada um faz com ele não importa. O que importa é que ele está ali, de mãos dadas contigo e pronto para bagunçar a sua vida após uma simples viagem interestadual de ônibus.

Ela não sabe, mas bagunçou a minha vida. Me tirou da zona de conforto e me fez ter certeza de que eu preciso evoluir como ser humano. Ela não sabe o quanto mudou a minha vida porque eu nunca fui tão claro como deveria. Ela nunca ouviu de mim o quanto ela é especial de uma forma espontânea. Talvez ela se lembre da minha cara de idiota ao acordar, daquele olhar de admiração por ela estar do meu lado que me fazia apenas sorrir e me sentir feliz por estar ali, sem dizer uma palavra sequer. No entanto, palavras precisam ser ditas… e até hoje eu nunca disse a ela aquelas três palavras que, por mais que tenham se tornado banais no mundo em que vivemos, ainda são muito boas de se dizer e também de ouvir quando vem de dentro.

Hoje, talvez seja tarde para dizer. Eu não sei. Um dia isso tende a passar e não irá doer tanto como agora. Talvez apareça outra pessoa que se sinta pronta para lidar com tudo isso que sou, que possa me dar a mão e me ajudar a seguir adiante. Eu não sei prever o futuro. Eu não sei nem qual será o meu futuro. Talvez eu nem esteja aqui, sentado nessa cadeira. Talvez essa outra pessoa nunca apareça. Talvez essa pessoa já esteja por aqui e eu não saiba. É impossível prever…

Se tem algo que eu aprendi com tudo isso, foi a viver o presente. E, no atual momento da vida, o meu coração apenas pede para olhar nos olhos dela e dizer: EU TE AMO!

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Publicitário com raízes no jornalismo. Apaixonado por música, viciado em redes sociais e cerveja. Vive dividido entre 524541 projetos e, por isso, dorme só quando dá.

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